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As curadorias realizadas ultimamente no Brasil, sobre arte popular, têm concentrado o foco exclusivamente sobre a escultura e a cerâmica. A pintura anda meio esquecida. Ainda que em parte isso seja conseqüência do stress provocado pelo embuste que nos enredou por uns tempos — a globanalização do maneirismo “naif”– é próprio da pintura não ser uma expressão artística de reconhecimento imediato, o que provoca certa dificuldade para o curador. Ela não se dá com tanta clareza quanto o tridimensional. Minuciosa e complexa, reserva certos mistérios que só se dissipam após um tempo de convívio, como toda linguagem de signos .
Todavia, a pintura popular brasileira é, no mínimo, tão importante quanto a escultura. Esta nos surpreende a cada novo lance de mercado, por demonstrar o fôlego de sua valorização e seu amplo reconhecimento, a ponto de parecer que vai se tornar um fetiche de colecionadores. A pintura tem permanecido no limbo.
Se atentarmos ao número de pintores populares expressivos que houve no país, chegaremos a um número provavelmente maior do que o dos grandes escultores. Suas origens têm que ser buscadas na religiosidade, em particular nos ex-votos pintados, abundantes nos séculos XVIII e XIX, uma manifestação de fé que a Contra-Reforma incentivou nas sociedades européias, ao reconhecer nas formas mais populares do catolicismo um movimento espontâneo de resistência às heresias.
Tenho para mim que houve também um outro campo aplicativo para a pintura, nesses tempos remotos: as placas publicitárias, que identificavam locais através de imagens, já que a imensa maioria da população colonial não sabia ler, nem escrever. É uma hipótese baseada unicamente na intuição dedutiva e em relatos históricos, pois praticamente nada restou dessa época, fosse porque as placas eram produzidas com materiais precários, fosse porque não eram consideradas objetos artísticos, portanto tornavam-se descartáveis assim que cessasse sua utilização. Entretanto, ainda hoje persistem em todos os rincões brasileiros sucedâneos dessa comunicação por imagem, dando leitura a quem não sabe ler e fornecendo a incipientes artistas do povo suas primeiras referências visuais.
E é precisamente dessa atividade que descendem alguns importantes pintores populares nacionais. Dois imediatamente me vêm à mente: o pernambucano Bajado, que começou sua vida fazendo cartazes de cinema e propaganda, e este Alcides Pereira dos Santos, cuiabano da Bahia, surgido do livre atelier que Aline Figueiredo e Humberto Espíndola abriram na segunda metade dos anos 70, na capital do Mato Grosso, sob a orientação didática da extraordinária pintora Dalva de Barros. Ali nasceu toda uma geração de artistas regionais de grande personalidade, entre eles Adir Sodré, Gervane de Paula, Nilson Pimenta e Alcides Pereira dos Santos.
Acompanho o trabalho de Alcides desde essa época e sempre achei que chegaria o momento em que sua arte seria entendida em sua plenitude, em que o mercado estaria finalmente maduro para abrir espaço a um artista de sua grandeza. Além de Pietro Maria Bardi, um dos primeiros a se impressionar com sua obra, ele já havia sido destacado por Aracy Amaral, no texto escrito para o catálogo de apresentação do Grupo Cuiabano em mostra realizada no MAM SP e MAM Rio, em 1981. Já havia impressionado Lelia Coelho Frota e Olívio Tavares de Araújo, que o chamou de inventor de formas em crítica na Revista Istoé. Já havia sido escolhido por Emanoel Araújo para importantes participações, como a Mostra do Redescobrimento e “Herdeiros da Noite”, realizada na Pinacoteca. Mas nunca mais, desde 1979, quando realizou uma memorável exposição no Museu de Arte e Cultura Popular da UFMT, Alcides havia feito uma individual à altura de sua obra, porque era um acontecimento que requeria o momento propício. E esse momento é agora, quando o patrimônio popular do país esbanja vitalidade, num mercado que tropeça na mesmice, nos valores que não se sustentam, na paralisia do novo , como adverte Ferreira Gullar.
Tendo exercido também o ofício de “plaqueiro”, entre outras ocupações com que ganhou o sustento, Alcides herdou da atividade a sabedoria da síntese: conseguir com uma técnica simples e o mínimo de elementos, o máximo de representação e comunicabilidade. Sua pintura tem a marca do atemporal e da universalidade. É aparentada por vezes com a arte rupestre, e não se despoja das raízes indígenas e africanas. Mas a obra de Alcides está impregnada de modernidade, de forma absoluta. Ele embrenhou-se a fundo por caminhos atuais — também trilhados pelos artistas pop — ao utilizar-se de toda uma iconografia procedente da cultura de massas, que Alcides re-elabora de forma superior a qualquer outro artista que conheço no Brasil, incluindo os eruditos.
Numa evidência de que a arte popular é parte do espírito contemporâneo, talvez sua face mais compreensível e renovadora , aspecto ainda não percebido inteiramente por curadores e marchands.
Roberto Rugiero, junho de 2007 (texto de apresentação para a mostra do individual do artista na Estação SP)