2ª a 6ª: 13h30 - 18h30 sáb.: 11h - 16h

Rua Cardoso de Almeida, 1297

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Artistas de uma só obra

Em Belo Horizonte o artesão Raimundo Machado de Azevedo construiu um presépio com 45 cenas da vida de Cristo composto por 580 figuras finamente esculpidas. Movida por um pequeno motor e uma parafernália de linhas e carretéis, foi o único trabalho artístico feito por Raimundo, que dele se ocupou a vida inteira. Chamava-se O Presépio do Piriripau e até Drumond lhe dedicou um poema. Com o falecimento do autor, foi doada à UFMG e hoje se encontra no Museu de História Natural de Belo Horizonte.

Belo Horizonte – presépio de Piripau

Marcel Duchamp, artista de muito conceito e pouca obra, levou quase duas décadas para terminar seu Nu Descendo a Escada. Há outros exemplos na arte mundial de pessoas que dedicaram praticamente todos os seus dias na elaboração de apenas uma obra, metáfora de sua passagem pelo mundo.

Aqui no Brasil, mais precisamente em Recife vive um artista que, considerado sob certo prisma, também é autor de uma única obra. Refiro-me à Oficina de Francisco Brennand, notável referência arquitetônica, visitação obrigatória para quem vai à capital pernambucana. Uma antiga fábrica de cerâmicas pertencente à família, restaurada e povoada de peças do artista, exibe uma perfeita integração entre arquitetura e escultura, e extasia os visitantes. Mas, lembrarão alguns, Brennand é autor de numerosos trabalhos, que vão da pintura à cerâmica artística e à decorativa, além de tapeçarias e desenhos! Sei disso muito bem. Mas acontece que tudo o que Brennand faz se torna pouco expressivo diante de sua Oficina. A produção de Brennand, pessoa culta que expõe com freqüência em museus pelo Brasil, é irregular. Suas pinturas não empolgam, seus numerosos desenhos, que compõem uma espécie de museu adrede ao edifício principal da Oficina, são comuns, acadêmicos e enfadonhos, e dificilmente têm trânsito no mercado. E a maioria de suas cerâmicas artísticas esbarra numa grandiloqüência um tanto formalista e fria.

Certa vez ocorreu um episódio que ilustra bem o sentimento que seu trabalho me transmite.

Fui convidado por um amigo, dono de um dos melhores antiquários de SP, hoje acrescido de galeria, para juntar-se a ele numa visita à Pinacoteca, com a finalidade de escolher pelo menos duas obras de Brennand para seu espaço, ao término da exposição, pois seu melhor cliente era parente do artista e ele não podia negar-se a esse pedido. Tentei me esquivar, pois já conhecia muito bem o trabalho do pernambucano e sabia que iria me entediar no meio daquelas quase 200 obras abrigadas na Pinacoteca. Já na entrada umas grandes figuras humanas, como que guerreiros, mostravam claramente o que havia lá dentro. Respirando fundo, reuni disposição para ajudar o amigo, que aliás é pessoa de muito bom gosto, tem grande convivência com arte e esperava que juntos conseguiríamos escolher o que de melhor havia na exposição.Olhamos com muita atenção as 200 obras. Conseguimos escolher uma. A segunda por mais que nos esforçássemos, não aparecia. Repassamos todo o conjunto. Havia uns falos descomunais, de ameaçadora catadura, gratuitos e descontextualizados .

Figuras humanas que embora nada tivessem de monstruoso, eram desagradáveis, refratárias à convivência. Umas coisas meio abstratas que não eram coisa alguma. E ali, meio perdido no meio daquela egotrip, uma peça despretensiosa, um solitário tamanduá, que nos conquistou pela singeleza.

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