2ª a 6ª: 13h30 - 18h30 sáb.: 11h - 16h

Rua Cardoso de Almeida, 1297

Perdizes - São Paulo, SP - 05013-001

Bichos e poetas no metrô

Sou usuário do Metrô, pois moro próximo da estação Clinicas e já vi inúmeras exposições no comprido corredor de acesso, onde pessoas costumam passar apressadas, quase sem notar que nas paredes e colunas centrais muitas vezes podem ser vistas obras importantes, superiores mesmo às que constituem o acervo de muitas de nossas galerias comerciais mais badaladas.

As mostras de fotografia, principalmente, despertam a atenção e são as que mais convidam as pessoas a parar e apreciá-las. A última delas levou-me a refletir sobre o papel educativo que a publicidade poderia desempenhar em nosso país – e não o faz. Acho que não há quem discorde da evidência de que um dos mais sérios problemas do país é a educação deficiente, que condena ao atraso, à violência e à alienação grande parte dos brasileiros.

Enchi a geladeira da família por um breve período de minha vida como redator publicitário — e deixei a profissão, não apenas porque era estressante, mas porque nela não cabia o livre arbítrio, nem a crítica, e muito menos a reflexão e a cidadania. Sempre que ouço esses ícones da propaganda e do marketing com egos inflados e ar de sabichões, constato que não vislumbram na profissão outra função além de ganhar dinheiro, aumentar faturamentos. Nada contra esses dois objetivos, quero esclarecer. Mas há outros aspectos a serem considerados. Pensemos um pouco, por exemplo, nas propagandas de cerveja, que tanto promovem o erotismo e o hedonismo barato. Por que não poderiam ajudar a conscientizar as pessoas a não dirigir embriagadas? Ou a propaganda de automóveis e o mundo da moda, as empresas de telefonia, tão ricas, que nada fazem além de vender a ilusão da felicidade e o consumismo imediato.

Que poder educativo extraordinário teriam em mãos!

Talvez eu seja apenas um cândido otimista quando manifesto a esperança de que as formas de comunicação de nosso sistema poderiam ter algum papel no sentido de devolver alguma coisa à sociedade, além de fazer girar a roda da economia. Desconfio inclusive que teriam um ótimo retorno em seu objetivo de vender mais, se o fizessem usando modos que dessem algum retorno à coletividade. A campanha de reciclagem aberta ao público feita pelo Pão de Açúcar, por exemplo, é útil e ajudou o grupo a desfazer-se da imagem de supermercado caro e elitista., trocando-a pela de uma empresa responsável, moderna e preocupada com a cidadania. Imagino campanhas para incrementar o respeito pelas faixas de pedestres, que mostrassem que as ruas não são lata de lixo, que conscientizassem sobre os malefícios da poluição sonora, que incentivassem a leitura, enfim, atitudes que ajudassem a incutir na cabeça de todos o respeito pelo outro, o conhecimento, o orgulho de vivermos num país civilizado.

Por isso foi com muita simpatia que vi a iniciativa da Pepsico, através de seu produto snacks Fandango, ao patrocinar a mostra Bichos do Zôo na estação Clinicas. São 19 painéis mostrando animais de nossa fauna, em seu habitat, acompanhados de informações pertinentes sobre cada um deles. Bela e valiosa mensagem sobre a natureza, sobre seres ameaçados de extinção, sobre os tesouros biológicos guardados em nossas matas. De 10 de fevereiro a 29 de maio as estações República, Clinicas e Paraíso mostram as fotos de Ricardo Martins e os textos do biólogo Cláudio Correa. Emocionante. Uma lição de vida, arte, civilidade. Acesse o site www.bichosdozoo.com.brpara ter uma idéia.

Na Clínicas, outra surpresa: nas paredes poemas de Mario de Andrade, Fernando Pessoa, Gonçalves Dias. Os versos, diretamente aplicados ao concreto, ecoam fortes no corredor dos apressados. Lá pude reler um dos mais belos versos da língua portuguesa:

Valeu a pena?

Tudo vale a pena, se a alma não é pequena.

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