2ª a 6ª: 13h30 - 18h30 sáb.: 11h - 16h

Rua Cardoso de Almeida, 1297

Perdizes - São Paulo, SP - 05013-001

Introdução para o livro do Ranchinho

Em meados dos anos 1970 participei, com o marchand Ricardo Camargo, de uma mostra que reunia 2 respeitados mestres populares, JAS e Agnaldo.

Entusiasmado com o êxito da exposição e com a boa acolhida desse tipo de arte, comecei a indagar sobre outros artistas. Os primeiros nomes eram aqueles mais conhecidos, ligados ao mercado europeu, freqüentadores de dicionários e mostras institucionais realizadas principalmente por Anatole Jakovski e Max Fourny. A pintora Iracema Arditi possuía o embrião de um museu de pintura popular, denominado Museu do Sol, cujo acervo hoje se encontra na cidade de Penápolis, onde o Museu, a duras penas, continua a expor, de forma intermitente. Vi e visitei todos e nenhum mexeu com minha libido. Vi que por aquele lado não chegaria a parte alguma. Hoje os remanescentes desse grupo são conhecidos como executantes de “arte naif” (sic).

Pergunto daqui, indago dali, consulto colecionadores, catálogos de salões em busca de pistas, até que alguém me fala de 2 pintores extraordinários. Um, recomendado por Cilda da Silva, esposa do crítico Quirino da Silva, era José Coimbra, mineiro que vivia na cidade de Mococa, cuja obra me conquistou imediatamente. Outro me foi referido por duas fontes: o pintor Heitor dos Prazeres Filho, que tinha bom olho para arte popular, falou-me de um tal de Sebastião, que vivia na cidade de Assis, SP, e que não era exatamente uma pessoa normal, do ponto de vista psíquico. Pouco tempo depois a filha do pintor abstrato-construtivo Heinz Kuhn, que conhecia a cidade e tb sabia olhar criticamente para o fazer artístico, mencionou um certo Ranchinho, nome que ao ser pronunciado, invariavelmente, as pessoas associam a uma conhecida dupla de músicos sertanejos. Pela descrição pareceu-me que seria a mesma pessoa, conhecida por 2 nomes diferentes. Fui até lá verificar. Havia uma informação paralela de que uma certa pessoa da cidade “explorava” o artista, promovendo exposições e embolsando parte da renda. Ao tocar a campainha da caso do artista, sou atendido por uma de suas sobrinhas. Sem mais delongas mostra-me uma grande pilha de cartões duplex, todos na mesma medida 35 x 50 e confesso que tive bastante dificuldade de escolher alguns, vendidos por preços bem modestos. Não estava o artista em casa, nem Dona Isaura, sua cunhada, que era a pessoa que na verdade tinha contato com os eventuais interessados. A maioria estava assinada com o nome Sebastião, mas já havia alguns com o nome Ranchinho. Nem sempre o nome estava escrito corretamente, em letra de forma, e me foi explicado que o autor era analfabeto e as vezes ele não acertava as letras. Voltei para SP com umas 20 obras e me pus a observa-las. Eram diferentes de tudo o que eu já havia visto. Não tinham um estilo típico de um artista primitivo, como na época eram chamados os artistas populares. Era uma obra mais parecida com um realismo tosco, por vezes onírico, e as cores variavam de trabalho para trabalho. Algumas semanas depois, numa galeria onde trabalhava, recebi a visita de Johanna e Richard Bilski, do museu Van Gogh em Haarlem e mostrei alguns trabalhos, entre eles os de Ranchinho. O impacto foi grande. Imediatamente ambos fizeram uma ligação entre o trabalho do assisense e o do grande mestre holandês, ressaltando a intensidade e a espiritualidade que emanava de ambos. Compraram-me alguns.

Volte a Assis, desta vez já mais habituado com a obra e finalmente conheci o artista, a cunhada e o tal intermediário. Este, de nome José Nazareno Mimessi, era na verdade um notável cidadão, idealista e mergulhado numa extensa pesquisa de pintores populares pelo Brasil todo, com quem vim a formar uma sólida amizade e troca de informações: eu apresentava os que ia descobrindo e ele me deixava ver o material fotográfico que recebia. Nazareno, num tempo sem internet, dedicava uma enorme energia a essa pesquisa, com finalidade de fazer um “dicionário de primitivos” futuramente. Ranchinho impressionou-me por ser uma pessoa dotada de inteligência fora do comum, embora deficiente físico e mental. Não era um oligofrenico, pois articulava bem os pensamentos, mas era difícil entender o que falava. Além do sotaque caipira extremado, não tinha dentes e dizia coisas engraçadas e absurdas, entremeadas de explicações sobre detalhes de suas cenas. Mancava de uma perna. Vestia paletó embora fizesse um calor muito forte. Indagado sobre qual nome ele deveria assinar, declarei que não importava muito qual deles fosse escolhido — eu pessoalmente achava Ranchinho melhor, embora sempre houvesse aquela associação musical — mas sim que os trabalhos passassem a ser assinados unicamente com um dos nomes.

Municiado com um material mais abundante, entusiasmado com a evidente beleza de alguns, comecei a realizar contatos com gente do ramo. O primeiro foi P.M. Bardi, que eu conhecera por ocasião de uma mostra que realizei com Agostinho Batista de Freitas. O professor parece que ficou um pouco agastado com o sucesso da mostra e não me recebeu amistosamente como das outras vezes que o visitei. Olhou com ligeireza e mau humor os guaches de Ranchinho e as pinturas de J. Coimbra e me desconcertou com um veredito severo: aquilo não tinha “qualidade pitórica”, aquilo não era nada.Fui procurar Claudino, da Nóbrega Antiguidades. Comprou-me alguns trabalhos, surprendido e comovido e recomendou que eu os mostrasse a Paulo Vasconcellos, antiquário que tinha grande conhecimento e afinidades com arte popular. Imediatamente Paulo compreendeu a grandeza do artista e quis ficar com outros. Dias depois Paulo me telefona e diz que tanto Ranchinho quanto Zica Bergami, cujos desenhos eu tb deixara com ele, havia passado por lá e ficara enlouquecido com o que vira! Os trabalhos de Ranchinho eram exatamente os 10 que eu havia lhe mostrado. Depois ouvi muitos relatos de situações parecidas, de depreciação de obras, julgadas inautenticas ou sem importância, adquiridas a posteriori através de laranjas.

Ranchinho fez mais de 2.000 obras, guaches, desenhos e acrílicos. Nem toda sua produção tem alto nível. A grande mairia dos trabalhos é um pouco burocrática, o artista trabalhou pq foi cobrado, e o resultado é ruim. Certa vez fiquei indo constantemente a Assis para ver suas obras e durante quase 2 anos não comprei nenhuma. Aí passou um circo pela cidade e ele despertou. Em menos de um mês realizou quase 40 obras, todas absolutamente irretocáveis.

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