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Oportunidades e oportunismos

O presidente Sarkozy está com seus índices de popularidade em baixa. Nem mesmo o terremoto do Haiti ele aproveitou para mostrar uma imagem de estadista. A França tem obrigação moral de ajudar no soerguimento do infelicitado país, pois ninguém ignora que é diretamente responsável pela situação, tendo forçado o Haiti a pagar uma divida tão imensa pela independência, que demorou um século para ser quitada e o jogou na miséria que hoje conhecemos.

Mas Sarkozy, o falastrão, tendo desprezado essa oportunidade histórica de redenção, resolveu faturar em cima de Albert Camus, cujo centenário de nascimento se aproxima. A idéia era levar os restos mortais do escritor, falecido em 1960 num desastre de automóvel, do túmulo ocupado na cidade de Lourmarin para o Panthéon de Paris, onde descansam os ossos de vários heróis nacionais. Não contava ele com a resistência do filho de Camus, Jean, que não apenas rejeitou o projeto, como declarou, alto e bom som, que o escritor, se vivo fosse, certamente estaria na oposição ferrenha ao atual ocupante dos Champs Elysées.

O assunto levou-me à reflexão de que no campo da arte brasileira também tenho assistido a várias jogadas promocionais que sempre acabam por encontrar guarida na nossa desavisada imprensa, sem que ninguém profira uma só palavra de discordância.

Um conhecido pintor popular, dotado de bastante talento, em determinado momento de sua carreira inventou de pintar uma Nossa Senhora de minissaia. A irreverência, divertida e inteligente, provocou polêmica e bombou sua imagem nos meios de difusão. Provavelmente embalado com o Ibope, logo depois ele se deixava fotografar em um caixão, postado na sala de sua casa e onde supostamente costumava tirar uma soneca, numa demonstração da excentricidade que muitas vezes acompanha os gênios. Um bom aluno de Dali, por certo. O tempo passou e a estrela do pintor foi diminuindo de intensidade na exata medida do interesse por seu trabalho.Era necessária alguma coisa nova para espicaçar a galera. Veio o 11 de setembro e em seu cavalete os aviões voltaram a atacar as Torres Gêmeas. Mas o impacto foi mínimo. Em seguida veio o mensalão e o pintor colocou em pratica novo plano. Com exposição marcada num hotel da capital paulista, que tinha entre seus hóspedes inúmeros políticos em transito pela cidade, resolveu exibir uma série de trabalhos, ridicularizando os deputados. Num gesto de autodefesa, a direção do hotel vetou a mostra e o autor protestou que estava sendo censurado, que isso e aquilo. Desta vez só um jornal o levou a sério. No mercado o episódio foi tratado como apelação, golpe publicitário, e o efeito foi mais deletério do que benéfico para o pintor.

Outro mestre no que poderia ser denominado“marketing da tragédia” é um renomado pintor que, apesar do visível desgaste de sua obra atual, ainda tem apreciadores, principalmente entre os galeristas da cidade. Aquele triste assassinato de um índio pataxó, incendiado por filhinhos de papai em Brasília, foi aproveitado com eficiência por ele. Indignado, imediatamente colocou em cena um trabalho de protesto. A mídia toda noticiou, no bojo da comoção que abalou o país. Houve o episódio dos 111 mortos na Penitenciária de SP, oportunidade de ouro para nova carona na mídia. Com grande alarde, ele deu sua inestimável contribuição para a conscientização da sociedade fazendo uma instalação cheia de veemência e discurso condenatório. Volta e meia ele reaparece. Não faz muito retornou às manchetes avisando o mundo que estavam falsificando seus quadros. Hoje, também o seu prestígio sofre uma acentuada erosão. Por isso tenho dúvidas se esses episódios trazem benefícios duradouros para a imagem de um artista, apesar dos efêmeros holofotes. Na maioria das vezes tentam mascarar a decadência da obra. Há ainda o perigo de que a oportunidade seja confundida com oportunismo e o tiro acabe saindo pela culatra.

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