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Museu de naïfs fecha as portas

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Ótima notícia

O auto-denominado Museu Internacional de Arte Naif estava localizado ao pé do bondinho que Leva turistas ao Corcovado. Pertencia ao joalheiro Lucien Filkenstein, era subsidiado por verbas públicas e finalmente fechou as portas. Quem aprecia Arte Popular respirou aliviado. Essa iniciativa nunca foi, na verdade, uma proposta séria. Não era um Museu. O que caracteriza uma instituição merecedora desse nome, entre outras coisas, é a obrigatoriedade de servir de referência . Não era o caso. Ali eram comercializados quadros, embora tanto estes, quanto o acervo exibido, estivessem num nível abaixo do que é oferecido na Praça da República, no Embu, ou em qualquer das feiras hippies comuns em cidades brasileiras. O Sr. Filkenstein — figura ligada ao ex-prefeito de Marselha, Jacques Medecin, preso no Uruguai pela Interpol e condenado a longa pena por apropriação de dinheiro público — aproveitou-se de brechas existentes no mercado cultural para montar uma galeria de péssimo gosto, travestida de Museu e dirigida a turistas e caçadores de souvenirs.

Impressionante como certos blefes tomam corpo, desde que se tenham as conexões apropriadas. O Sr. Filkenstein publicou livros , apareceu com frequência na mídia como arauto da brasilidade, e foi levado a sério por muita gente boa: entre outros, o crítico Ferreira Gullar, a BM&F de São Paulo, a Secretaria de Cultura do Rio de Janeiro, o Sesc paulista e dezenas de jornalistas. Mas o pior foi ter recebido amplo apoio do Itamarati. Graças à proteção e às verbas concedidas por nosso Governo, representou o Brasil na Feira de Frankfurt no ano em que o país foi alio homenageado. Uma das apresentações mais vergonhosas e tristes que já vi. Ainda no ano passado, mal das pernas, foi agraciado com a curadoria da mostra oficial Brasil/Haiti, que percorreu várias capitais. Feita em conjunto com o competente marchand canadense Reynald Lally, provocou reações indignadas com o que reuniu para representar a nossa arte. Um vexame.

Enfim, Ludibriou os desavisados e os indefesos de sempre. Numa entrevista à Revista Veja, certa vez, jogou no ar que sua coleção de 8.000 itens (!) estava sendo pretendida pelo Japão, mas que ele sonhava em vendê-la a alguma instituição nacional. Embora não tivesse nascido aqui, defendia a venda ao Governo brasileiro como uma atitude patriótica, uma concessão. Felizmente o truque não colou. Sua especialidade era a obsessão por figurar no Guiness of Records: tinha o maior quadro do mundo, o mais comprido, o mais isso, o mais aquilo.Um de seus mais frequentes e fiéis admiradores era o curador das Bienais de Naifs promovidas pelo Sesc de Piracicaba, que lhe abriu várias portas naqueles eventos e lhe conferiu uma sobrevida de credibilidade.

Finalmente a casa caiu, quando seus apoios minguaram. Já não era sem tempo.

Foi o maior responsável pela introdução do conceito de “arte naif” no mercado, causando enorme prejuízo aos verdadeiros pintores populares brasileiros, ao colocar no mesmo patamar um José Antonio da Silva e um pintoreco fake da calçada de Copacabana. Ainda vai levar tempo para recolocar as coisas em seus devidos lugares. Como pode ser observado pela ausência da pintura em todas as exposições importantes feitas nos últimos tempos sobre Arte Popular Brasileira. Mas sobre isso vale a pena falar em outra ocasião.

Roberto Rugiero

(texto publicado pela Revista A Relíquia em 2007)